5ª Mostra Canavial de Cinema

Chegamos na 5ª edição da Mostra Canavial de Cinema e na estrada que nos trouxe até aqui, fomos testemunhas do crescimento exponencial de iniciativas que pensam, exibem, discutem, experimentam e realizam audiovisual na região da zona da mata norte pernambucana.

Estas iniciativas são parte de um percurso maior a ser percorrido com o objetivo de consolidar um arranjo produtivo local em audiovisual na região. Neste esforço, convergem os desejos de diversificar as possibilidades de geração de renda, como também potencializar a produção e difusão regional.

Neste contexto, a Mostra Canavial de Cinema tem o papel importantíssimo de renovar anualmente os laços das articulações entre as células produtivas que atuam em diferentes cidades da região, possibilitando o cenário necessário para o surgimento de projetos made in mata norte,.

Outro aspecto percebido neste percurso até a 5ª edição foi o amadurecimento das relações que o nosso público estabeleceu com o perfil do conteúdo fílmico que apresentamos todos os anos. A produção de curta-metragem nacional já deixou de ser algo encarado como novidade pela população local, que todos os anos aguarda ansiosamente pela programação da Mostra Canavial de Cinema.

Ao longo das cinco edições, temos a certeza de que estamos no caminho certo, a cada ano ajustamos nossas ações para acompanhar as transformações sociais locais. A Mostra Canavial de Cinema é um projeto totalmente pensado para o público e os agentes transformadores da mata norte pernambucana. Esta relação é o combustível que nos alimenta para seguir nosso percurso juntos.

TEMA: AS TRÊS ECOLOGIAS DE FÉLIX GUATARRI

A engenharia social contemporânea está enguiçada, os sinais de desgastes são cada vez mais doloridos e deixam cicatrizes irreversíveis. A humanidade parece estar em colapso, a convivência tem se tornado um desafio cada vez maior. Guerras civis, atentados terroristas, crimes ambientais, racismo, intolerância religiosa, proliferação de campos de refugiados, são tantas mazelas que uma guinada no caminho contrário parece distante. Mais que desejar mudar, é preciso ser parte da mudança e diminuir a distância entre o discurso e a prática.

O pensador Félix Guatarri, no estudo As três Ecologias, diz que qualquer mudança significativa na sociedade só será possível se articulada entre o social, ambiental e subjetivo. A Mostra Canavial de Cinema, além de acreditar em Guatarri, crê que são nas pequenas subversões que surgirá a força motriz para uma guinada ao caminho de uma construção social possível, sustentável e de maior sensibilidade.

Em sua 5ª edição, a Mostra Canavial de Cinema adotou o estudo “As três Ecologias” como norteador de sua programação. Entre sessões de cinema, oficinas e debates, o público poderá refletir diversas atitudes possíveis de serem assumidas em função da criação de uma sociedade mais harmônica.

Caio Dornelas
Idealizador e coordenador

OUTRA ECOLOGIA É POSSÍVEL

Por André Dib*

Ecossistemas envenenados por lama tóxica; crise de refugiados; desastres aéreos; homens-bomba; violações, execuções, invasões e massacres. Quando comecei a pensar a seleção de filmes a seguir, os episódios mais nefastos do último ano ainda não haviam ocorrido. Não apenas o primeiro, mas todos precisam ser encarados como o que são: crimes ecológicos.

Em 2015 fissuras se verteram em abismos, expondo as violentas opressões e contradições de sistemas fadados ao colapso. Antes disso, porém, pequenos movimentos, espontâneos, organizados, já vinham ocupando espaço, em busca do oriente necessário para seguir atento e forte, na contramão das grandes narrativas e contestando o avanço esmagador do capitalismo e sua razão louca, que ele próprio não consegue mais sustentar.

A Zona da Mata Norte enfrenta seus próprios problemas: de um lado, destila séculos de uma economia baseada na monocultura da cana; de outro, enfrenta o impacto da chegada de duas indústrias, uma de automóveis e outra de produtos farmacêuticos, justificadas por um perverso discurso desenvolvimentista, um mantra no compasso da inexorável marcha do progresso. Sabemos onde isso vai dar. “Existe uma ecologia das idéias danosas, assim como existe uma ecologia das ervas daninhas”, diz Gregory Bateson, citado pelo filósofo francês Felix Guattari, na abertura do livro “As Três Ecologias”.

Há saída. Para Guattari, há que se buscar “no seio das paisagens e dos fantasmas que habitam as mais íntimas esferas do indivíduo, a reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos”. Ao propor o tema “As Três Ecologias”, a Mostra Canavial espera não apenas observar impasses terrivelmente atuais, mas, de acordo com Guattari, reverberar “novas práticas sociais, estéticas, de si na relação com o outro, com o estrangeiro, com o que é estranho: é exatamente na articulação da subjetividade em estado nascente, do socius em estado mutante, do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado, que estará em jogo a saída das crises maiores de nossa época”.

Que os filmes nos guiem por esse e outros caminhos, revisões e retomadas. Boas sessões!

*pesquisador, crítico e curador da 5ª Mostra Canavial de Cinema

(Programa 1)
Do canavial para o mundo |

Exília
24′ | 2015 | COR | PE | FICÇÃO

Sinopse:

Dona Bernadete visita Dona Leriana, sua antiga vizinha na Ilha de Tatuoca.

  • Direção: Renata Claus
  • Roteiro: Renata Claus
  • Fotografia: Tiago Campos
  • Produção: Stefania Régis, Manoela Torres
  • Som: Nicolas Hallet, Simone Dourado
  • Montagem: Amandine Goisbaut
No devagar depressa dos tempos
25′ | 2014 | COR | PI/SP | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

Guaribas, ali bem do lado da Serra das Confusões, sertão do Piauí: onde o tempo da escravidão ainda é frase no presente, algo começa a mudar. Conversando com mulheres de duas gerações, escutamos como era, como é e como pode ser a vida de quem acaba de cruzar a linha da miséria.

  • Direção: Eliza Capai
  • Fotografia: Eliza Capai
  • Produção: Eliza Capai
  • Desenho Sonoro: Kira Pereira
  • Montagem: Eliza Capai
Carranca
10′ | 2013 | COR | BA | FICÇÃO

Sinopse:

Uma menina, uma carranca, o rio e o medo.

  • Direção: Wallace Nogueira e Marcelo Matos
  • Roteiro: Wallace Nogueira e Marcelo Matos
  • Fotografia: Nicolas Hallet e Wallace Nogueira
  • Produção: Tiago Tao e Paulino Leite
  • Som Hilário Passos
  • Montagem: Wallace Nogueira e Marcelo Matos
Nicinha, um transe amazônico
3’30” | 2011 | COR | PA | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

Uma mulher em busca do amor se perde em meio a homens sórdidos. Resumo de uma vida louca e dolorida.

  • Direção: Beto Brant
  • Fotografia: Beto Brant, Renato Ciasca e Marçal Aquino
  • Produção: Drama Filmes
  • Desenho Sonoro Beto Ferraz
  • Montagem: Simone Elias
Retomada
16′ | 2015 | COR | BA | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

Primeiro povo a fazer contato com os portugueses no Brasil, os Tupinambás lutam atualmente pelas terras que os fazendeiros tomaram no início do século passado. O filme
investiga o processo de resistência dos índios da Serra do Padeiro, território liderado pelo Cacique Babau.

  • Direção: Leon Sampaio
  • Roteiro: Leon Sampaio e Povo Tupinambá
  • Fotografia: Cássius Borges e Leon Sampaio
  • Produção Executiva: Breno Tsokas
  • Desenho Sonoro Pedro Patrocínio
  • Montagem: Leon Sampaio e Povo Tupinambá
Cordilheira de Amora II
12′ | 2015 | COR | MS | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

Cordilheira de Amora II é um documentário espontêneo, filmado com celular na Aldeia Amambai, no Mato Grosso do Sul, fronteira do Brasil com o Paraguai. Lá, uma índia Guarani Kaiowá, Cariane Martines de 9 anos, transforma seu quintal num experimento do mundo. Ela cria histórias e personagens que alargam sua solidão em brincadeiras, sonhos e projetos.

  • Direção: Jamille Fortunato
  • Fotografia: Alexandre Basso e Jamille Fortunato
  • Produção: Lia Mattos
  • Montagem: Jamile Furtado
  • Finalização: Caetano Travassos

(Programa 2)
Do mundo para o canavial |

História Natural
12′ | 2014 | COR | PE | FICÇÃO

Sinopse:

Um homem encontra um misterioso objeto orgânico no topo da árvore mais alta de uma floresta.

  • Direção: Júlio Cavani
  • Roteiro: Júlio Cavani
  • Fotografia: Pedro Sotero
  • Produção: Júlio Cavani
  • Som: Pablo Lamar
  • Montagem: Isabela Stampanoni
A copa do mundo no Recife
14′ | 2014 | COR | PE | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

O realizador, Kleber Mendonça Filho, foi convidado para registrar a passagem da Copa do Mundo na sua cidade, o Recife.

  • Direção: Kleber Mendonça Filho
  • Fotografia: Ernesto carvalho
  • Produção: Emilie Lesclaux
  • Montagem: Leonardo Sette, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Giz
8’08” | 2015 | COR | SP | ANIMAÇÃO

Sinopse:

Um homem vive a rotina sem descanso numa imensa corporação. Incapaz de se relacionar com sua colega de trabalho, ele será questionado por um sonho hipnótico, até o ponto em que ele não poderá mais perceber se está realmente acordado.

  • Direção: Cesar Cabral
  • Roteiro: Leandro Maciel
  • Fotografia: Carlos Firmino
  • Animação: Fábio Yamaji
  • Produção: Stephanie Saito
  • Montagem: Cesar Cabral e Eva Randolph
Ilha das Flores
12′ | 1989 | COR | RS | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

Um tomate é plantado, colhido, transportado e vendido num supermercado, mas apodrece e acaba no lixo. Acaba? Não. ILHA DAS FLORES segue-o até seu verdadeiro final, entre animais, lixo, mulheres e crianças. E então fica clara a diferença que existe entre tomates, porcos e seres humanos.

  • Direção: Jorge Furtado
  • Fotografia: Roberto Henkin e Sérgio Amon
  • Produção: Nora Goulart
  • Montagem: Giba Assis Brasil
A clave dos pregões
15′ | 2015 | COR | PE | DOCUMENTÁRIO

Sinopse:

Quatro vendedores recortam a massa sonora da metrópole em sua essência musical.

  • Direção: Pablo Nóbrega
  • Roteiro: Pablo Nóbrega
  • Fotografia: Pablo Nóbrega
  • Produção: Marilha Assis
  • Som: Danilo Carvalho
  • Montagem: Marcelo Pedroso
Hospedeira
14’25” | 2014 | COR | SP | FICÇÃO

Sinopse:

“Fazia-se na floresta um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.”

  • Direção: Rita Carelli
  • Roteiro: Rita Carelli
  • Fotografia: Rafael Martinelli
  • Produção: Angelo Ravazi e Pedro Arantes
  • Som: Guile Martins e Tales Manfrinato
  • Montagem: Helio Vilella Nunes
Miss & Grubs
9’53” | 2015 | COR | SP | ANIMAÇÃO

Sinopse:

Era uma vez, em uma Floresta Escura onde nem um raio de luz, nem de amor, conseguiram penetrar, uma roedorazinha perfeita que vivia perfeitamente solitária em uma perfeita casa-ovo, na qual tudo se encaixava e funcionava perfeitamente bem. Um dia, porém, sua fonte de energia se esgota. E então, Miss precisa se expor aos perigos selvagens da escuridão para encontrar o que lhe falta.

  • Direção: Camila Kamimura e Jonas Brandão
  • Roteiro: Camila Kamimura e Victor Canela
  • Direção de Produção: Jana Dalri
  • Direção de Animação: Evanildo Santos
  • Edição: Jonas Brandão