Entre abismos, noites claras e o desejo por dias melhores na Mata Norte

Por André Dib

Assentamento Camarazal (PE) – Fincada entre o sonho e a realidade, a tela se fortalece. Por um lado, o bucolismo noturno coroado pela lua cheia nos envolve em outras dimensões da existência; por outro, o som alto de algum estabelecimento vizinho propaga músicas cujo gênero se convencionou chamar “forró safado”. A dissonância, que atrapalhou um pouco as sessões sem no entanto as inviabilizar, é mais um sintoma de um ecossistema em desequilíbrio.

O abismo aberto entre a música “Tia, vou pegar a sua filha” e a exibição do curta “No devagar depressa dos tempos”, em que a diretora Elisa Capai olha para as mudanças trazidas pelo poder público presente em Guaribas, sertão do Piauí, é o mesmo que surge quando a diretora pergunta para as entrevistadas “o que é ser mulher”; ou quando Nicinha, a personagem do curta de Beto Brant narra a violência sofrida em silêncio, na noite do garimpo, para que não “acontecesse nada” com ela.

É importante ressaltar o acerto da Mostra Canavial de Cinema em realizar suas sessões naquela região rural de Nazaré da Mata. Fundado há 20 anos, o Assentamento Camarazal é formado por 120 famílias que desenvolveram ao longo desse tempo senso crítico e visões de mundo bastante próprios. Tanto que, após as sessões de sábado (23) e domingo (24), os debates duraram quase o mesmo tempo das projeções, com participação ativa de lideranças como o coordenador do assentamento, Mário José.

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Ao revelar temas ligados ao ambiente rural, o programa “Do Canavial para o Mundo” gerou identificação imediata, como nos filmes “Retomada” e “Cordilheira da Amora”, que abordam, cada um à sua maneira, dimensões do imaginário indígena. “Aqui enfrentamos preconceito quando vamos vender nossos produtos na feira ou quando nossos filhos vão à escola. Mas a gente lembra que veio da favela, da casa alugada, do subemprego. Hoje vivemos bem melhor do que na cidade”, diz Rodrigues, ao lado da esposa Luci, enquanto as filhas brincavam ao redor.

“A Copa do Mundo no Recife” levou a reflexões sobre as mudanças ocorridas em Carpina, município próximo a Nazaré da Mata, por conta da construção da Arena Pernambuco, como o crescimento desordenado a especulação imobiliária. “Ilha das Flores” gerou debates sobre como trabalho, consumo e produção de lixo são interconectados e evocou a lembrança de quando visitantes da Noruega se impressionaram com os padrões de consumo brasileiro, mesmo em ambientes que sugerem contenção de gastos.

“História Natural” despertou memórias de quando havia mais animais próximos ao assentamento, como capivaras e espécies de pássaros que se tornaram raras por conta da caça. “Eles se abrigavam aqui, fugindo da caça, das queimadas e da mecanização do solo”.

Um passo a mais na diminuição do abismo vem de uma informação dos próprios moradores, de que o Assentamento Camarazal agora conta com um cineclube, o Tela em Movimento, fundado após oficina de cineclubismo realizada na última Mostra Canavial. Como escreve Felix Guattari, no livro “As Três Ecologias”, “a reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos”. Ou citando João, um dos pioneiros do assentamento, no fim de um dos debates: “não estamos aqui perdendo tempo. Estamos construindo algo juntos, para amanhã o dia nascer mais claro e bonito”.