Outra ecologia é possível

Imagem do curta "Retomada", de Leon Sampaio

Por André Dib*

Ecossistemas envenenados por lama tóxica; crise de refugiados; desastres aéreos; homens-bomba; violações, execuções, invasões e massacres. Quando comecei a pensar a seleção de filmes a seguir, os episódios mais nefastos do último ano ainda não haviam ocorrido. Não apenas o primeiro, mas todos precisam ser encarados como o que são: crimes ecológicos.

Em 2015 fissuras se verteram em abismos, expondo as violentas opressões e contradições de sistemas fadados ao colapso. Antes disso, porém, pequenos movimentos, espontâneos, organizados, já vinham ocupando espaço, em busca do oriente necessário para seguir atento e forte, na contramão das grandes narrativas e contestando o avanço esmagador do capitalismo e sua razão louca, que ele próprio não consegue mais sustentar.

A Zona da Mata Norte enfrenta seus próprios problemas: de um lado, destila séculos de uma economia baseada na monocultura da cana; de outro, enfrenta o impacto da chegada de duas indústrias, uma de automóveis e outra de produtos farmacêuticos, justificadas por um perverso discurso desenvolvimentista, um mantra no compasso da inexorável marcha do progresso. Sabemos onde isso vai dar. “Existe uma ecologia das idéias danosas, assim como existe uma ecologia das ervas daninhas”, diz Gregory Bateson, citado pelo filósofo francês Felix Guattari, na abertura do livro “As Três Ecologias”.

Há saída. Para Guattari, há que se buscar “no seio das paisagens e dos fantasmas que habitam as mais íntimas esferas do indivíduo, a reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos”.  Ao propor o tema “As Três Ecologias”, a Mostra Canavial espera não apenas observar impasses terrivelmente atuais, mas, de acordo com Guattari, reverberar “novas práticas sociais, estéticas, de si na relação com o outro, com o estrangeiro, com o que é estranho: é exatamente na articulação da subjetividade em estado nascente, do socius em estado mutante, do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado, que estará em jogo a saída das crises maiores de nossa época”.

Que os filmes nos guiem por esse e outros caminhos, revisões e retomadas. Boas sessões!

* pesquisador, crítico e curador da 5ª Mostra Canavial de Cinema