Um encontro para pensar o cinema

Por Enock Carvalho

Ao completar o circuito de oito municípios na Zona da Mata Norte pernambucana, a despedida da 4ª Mostra Canavial de Cinema foi marcada pela realização do Encontro do Arranjo Produtivo em Audiovisual. O evento começou no sábado (22) com seminários realizados no Engenho Santa Fé, em Nazaré da Mata. Quatro debates aproximaram pessoas de diferentes regiões para discutir os rumos do audiovisual na Zona da Mata.

Mesa 1: Direitos Humanos – O primeiro debate, “Cinema e Direitos Humanos”, contou com Francisco Cesar Filho (diretor do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, curador e cineasta), Renato Pereira (bacharel em Ciências Sociais pela UFPE e integrante do Centro de Cultura Luiz Freire) e Paulo Roberto (diretor do filme “Malha”, selecionado para a mostra “Do Canavial para o Mundo” deste ano).

Renato iniciou o debate contextualizando a origem do termo direitos humanos. “O ideal dos direitos humanos é o de preservar grupos frágeis em relação aos poderes constituídos, como o Estado”, explicou, ao fazer um panorama sobre a aplicação do termo. Francisco, ao relacionar o termo ao cinema, contou sobre sua experiência como curador: “Ao assistir filmes do Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, você confirma que as questões dos direitos humanos estão relacionadas”.

Adentrando nesse tópico, Francisco se mostrou preocupado na função do cinema em promover o debate sobre o tema. Ele chamou de “trabalho de formiguinha” o ato da formação de público para uma mostra ou festival, e ressaltou a sua importância. “O cinema é capaz de legitimar os povos através dos costumes e a preservação desses costumes para além das gerações”, explicou.

Já Paulo apontou uma deficiência no significado do termo “direitos humanos” no cinema, indicando uma dificuldade de categorizar o tema nos filmes – e exemplificou com o seu filme, “Malha”.

Rodrigo Almeida, Breno César e Caio Dornelas falam sobre produção. Foto: Ernesto Rodrigues
Rodrigo Almeida, Breno César e Caio Dornelas falam sobre produção. Foto: Ernesto Rodrigues

Mesa 2: Pensar, realizar – A segunda mesa, “Pensando o cinema – Conversando com os realizadores” reuniu Rodrigo Almeida (cineasta e curador da Mostra Canavial deste ano), Breno César (diretor de fotografia do filme “Sophia”, exibido na Mostra) e Caio Dornelas (idealizador da Mostra e cineasta).

O foco foi a produção audiovisual com fontes alternativas de financiamento ou ausência completa de orçamento para bancar os custos. Breno, que em breve vai dirigir o seu primeiro curta-metragem, falou sobre a falta de incentivo a produção na Paraíba e apontou a ausência de editais. Ele citou a importância dos coletivos que fazem cinema sem remuneração, prática conhecida por “brodagem”.

Rodrigo, que integra o coletivo Surto & Deslumbramento, contou que os filmes realizados pelo grupo não receberam nenhum incentivo financeiro até hoje. E que, conscientes dos limites de produção, os integrantes dão o máximo de si. “Realizou seis filmes nesse contexto de produção”. Para Caio, a produção deve ser pensada nas circunstâncias e avaliações devem ser feitas. “Avaliar se é viável, levantar soluções para a produção e até mesmo anular deve ser considerado”, justifica.

Mesa 3: Profissionalizar – A terceira mesa, “Profissionalização do Audiovisual”, recebeu Mariana Valença (Coordenadora de Tecnologia do PortoMídia), que mostrou as ferramentas disponibilizadas pelo PortoMídia aos realizadores do audiovisual. Uma apresentação detalhada, sobre tecnologias de correção de cor, mixagem de som, edição e montagem, que já foram utilizadas para oito longas-metragens de Pernambuco. Mariana destacou o PortoMídia como ferramenta de fomento e ressaltou que todos os equipamentos estão à disposição para uso gratuito, mediante solicitação.

Lucio Mauro Lira fala sobre os avanços do edital do audiovisual do Funcultura / Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. Foto: Ernesto Rodrigues.
Mauro Lira fala sobre avanços do edital do Funcultura / Secretaria de Cultura de Pernambuco. Foto: Ernesto Rodrigues.

Mesa 4: Economia Criativa – No domingo, encerrando o encontro, a mesa “Mata Norte Criativa” foi realizada com os convidados Lúcio Mauro Lira (Coordenação de Cinema / Fundarpe), Tarciana Portella (do Conselho Consultivo do Instituto Delta Zero) e Francisco Belasco (Diretor de Economia Criativa da Agência de Desenvolvimento de Goiana).

Lúcio deu enfoque ao Edital do Audiovisual, o Funcultura, lançado recentemente. Apresentou as categorias e explicou como se dá o processo de inscrição, aprovação e realização de um projeto incentivado pelo Edital (neste ano com mais de R$ 20 milhões, somando investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual). Tarciana, que passou oito anos à frente da Representação Regional Nordeste do Ministério da Cultura, trouxe dados sobre investimentos públicos no setor audiovisual de modo a aproximar os realizadores da Zona da Mata a captação de recursos para a produção.